Quanto tempo demora para termos um verdadeiro sentimento para ser exposto para milhares de pessoas? Muitos artistas vivem através de histórias para serem contadas, mas e se forem nossas histórias? Vivemos o bastante para ter o que contar?


Após sete anos sem nenhum álbum de estúdio, Jade Baraldo retorna com um álbum chamado “Não Há Nada Mais Honesto que um Sonho”, um projeto desafiador que serviu como um processo de cura para a artista, que passou por diversos momentos de mudança.
Neste período, uniu-se ao duo SANTIN, composto por Thiago e Samuel, através das conexões na Shake Music, onde se tornaram amigos e criaram diversas composições, elevando o potencial da artista, principalmente por terem se encarregado do álbum em todas as partes, desde a composição até os visuais criativos do projeto.
Como foi retornar após 7 anos, você considera isso um recomeço ou um novo começo?
Jade: Tava conversando com uma amiga minha e eu disse: “Cara, eu tava numa crise” e ai ela falou: “Eu não te julgo porque, infelizmente, você depende da aprovação dos outros para viver” e quando ela me falou isso aquilo me bateu de uma forma tipo, cara, realmente é muito difícil fazer o que a gente faz, e ficar de frente das coisas né? E tipo, dá certo, dá errado, tá tudo ali com você. Então, dá um frio na barriga muito grande por conta dessa responsabilidade, de fazer um grande trabalho, depositar um grande dinheiro, de criar expectativa com outras pessoas. Eu acho que realmente dá um nervoso, mas ao mesmo tempo dá uma sensação de liberdade […] Eu estou falando coisas muito pessoais nesse álbum e eu tava me sentindo muito mal nesse período que fiz. Foi um período muito difícil, um processo muito difícil, mas ao mesmo tempo muito bom e a gente chama ele de roda de cura. Tipo, foi acontecendo meio que um processo de cura no caminho junto com os meninos e tudo. Então, foi um alivio botar para fora e eu acho que a parte mais aliciante vai ser mesmo cantar essas músicas no palco. Eu acho que vai ser ali que vou conseguir, tipo de fato, sentir que eu tô “exorcizando”, sabe?
Como foi chegar no título do álbum? Creio que ele resume bem a obra mas também um título bem extenso, como foi?
“Eu gosto bastante de título extenso, assim, muito fã de Lana Del Rey. O meu primeiro álbum “Mais que os Olhos Podem Ver”, ele também é grande né? Tipo extenso. […] Mas eu sei que eu tinha já o nome do álbum antes de qualquer coisa, tipo, me veio o nome do álbum antes de qualquer coisa. “
Jade Baraldo para o We In The Crowd
Com 60 composições, que se transformaram em 11 faixas, a narrativa acompanha a mudança de Jade para o Rio de Janeiro e o início de uma separação. Basicamente, foi um desafio trazer todos os sentimentos daquele momento.

O álbum é uma reconstrução de uma artista que precisou se conectar consigo mesma, e isso também se reflete nas produções em que o duo SANTIN colaborou, passando pelo jazz, samba e elementos mais voltados para a música alternativa, criando uma conexão com as raízes de quando a cantora fazia covers e se sentia mais conectada com a música.
“Foi assim, basicamente a gente tá nessa nossa distribuidora, a Shake, faz um tempo, vários anos já, só que a gente vinha de um processo de só lançar a música nossa do “SANTIN” como artistas e não como compositores e produtores para outras pessoas. E ai começou a rolar esse interesse pra gente de falar com as pessoas da distribuidora e tudo mais, de talvez começar a fazer música para outros artistas, mas foi uma coisa que… Tava no campo das ideias e ainda não tinha sido executada.
Duo SANTIN para o We in The Crowd
“E como aconteceu o encontro com a Jade Baraldo?”
“No período, a Jade estava na Warner e aí ela saiu da Warner e foi para a Shake. Ela voltou a trabalhar com o Bruno, que é o dono da Shake e ela já havia trabalhado com ele antes por muito tempo. Ela foi, do que antes era a Shake, a MIlk […] E ai eles colocaram a gente para conversar. Tava rolando tudo como se fosse uma pré-criação do álbum já. Ela já tava fazendo o álbum com vários outros produtores, compondo com vários outros compositores, fazendo várias sessions, mas ela ainda queria mais […] E ai ela gostou muito especificamente de uma demo, que era tipo o “rascunhozinho”, a primeira migalha do que iria virar Doente.”
Duo SANTIN para o We In The Crowd
Com um processo visual mais voltado para visualizers, a cantora disponibilizou já o primeiro da canção “Doente”, confira:
Samuel: Foi um negócio muito instantâneo. O quanto ela se abriu, porque ela tava num momento muito delicado ainda. Ela ainda tava no comecinho do processo de separação, ainda tava tudo muito turbulento e rolou uma intimidade tipo muito rápida, coisa de minutos, ela já tava desabafando tudo da situação na vida pessoal dela, sem forçar, foi muito natural.
Qual foi o maior desafio na criação do conceito do álbum para não se tornar uma estética vazia?
“Boa pergunta. Acho que talvez escolher as músicas que iam entrar porque a gente tinha muito medo de ficar muito repetitivo, de parecer forçado, mas a gente deu uma certeza sorte […] A gente escolheu a ordem de contar essa história quando todas as músicas já estavam prontas.”
Duo SANTIN para o We In The Crowd
Sendo um casal e trabalhando juntos, como é essa divergência de ideias?
Samuel: “Acho que nós dois, a gente vem de lugares muito diferentes tipo, ele é de São Paulo e eu sou de Recife, sei lá eu gosto muito mais de brasilidades e Thiago é muito pop. Eu acho que de alguma maneira, como a gente faz pop, isso não acaba virando divergência, a gente acaba se complementando. Tipo, é uma letra com a melodia mais pop, e ai o outro traz uma mensagem mais brasileira, sabe? Mais acessível? Faz sentido? Então eu acho que a gente se completa nesse sentido.”
Thiago: “A gente tem habilidades muito complementares, a nossa criação é muito complementar nesse sentido. É bem fácil.”
Samuel: “Tem divergências? É sempre tem, tem que ter, mas as nossas divergências em 99% das vezes vem de inseguranças, mesmo assim, é de um lugar que minha ideia não foi boa o suficiente e não conhecer tato ou ter consumo de algo que ele consome muito, ele escuta muito e tal, ai me sinto estranho […] Me sinto inseguro de produzir uma coisa que é que eu não tenho conhecimento teórico.”
Thiago: “Isso vem muito do comecinho da nossa vivência de música, antes da gente se conhecer. Porque depois que a gente se conheceu, a gente tá seis anos juntos, a gente já foi morar logo junto. E depois que a gente começou a morar juntos a gente escuta as mesmas coisas, consome coisas muito parecidas e ai deu tempo da gente conseguir se conectar e encontrar a intersecção, para criação ser a intersecção do que nós dois gostamos igual”

O amor aparece como um “fio condutor”, como descrito pela própria Jade, e também representa um processo de construção do amor-próprio. Isso leva o ouvinte a compreender as nuances da artista e trazer as mensagens para o próprio cotidiano como uma forma de também se conectar com ela.
“Eu tenho minha versão e eles tem a versão deles que eu perguntei para eles num encontro que a gente teve. A minha versão é que no Mar de Copas eles se encontrariam assim, ou então, “Não Sonho o Mesmo Sonho”, onde que passa uma mensagem de, o álbum vem, começa ficar meio tenso e de repente, ele passa uma mensagem, em ordem né, claro. Então acho que eles conseguiram super entender isso. Mas eu fiz essa pergunta para eles e eles falaram que é “Sobrenome”, que é uma música que lembra muito eles no meu início de carreira quando eu tava fazendo cover de voz e violão pro YouTube e que nessa música eles sentiram uma nostalgia, uma sensação de reencontro e eu achei aquilo muito interesse. Porque eu gosto, gostava muito de fazer cover e talvez é algo que eu tenha que voltar a fazer mais de hobby”
Jade Baraldo para o We In The Crowd
Houve uma transição de estar em uma gravadora e agora estar de forma independente. Você se sente mais no controle de tudo? Como é isso pra você?
Jade: É bem drástico a diferença. É realmente isso, muito centralizador. Tipo, os meninos até me ajudam com isso, só que depende tudo muito, muito de mim, todas as coisas e todo o investimento é realmente tipo […] Eu perdi recursos, mas ganhei também no sentido de poder falar aquilo que eu quero, fazer isso e falar aquilo que eu quero falar e fazer as campanhas que gosto de fazer com os meus fãs. Eu acho que isso foi uma coisa que foi muito prejudicada ao longo dessa minha relação com gravadora, mas enfim, hoje sou eu diretamente que faço as coisas. Não tem ninguém falando por mim. Isso é uma coisa muito boa pois me alivia, porque eu sinceramente acho que hoje eu teria até medo de deixar isso na mão de alguém para falar por mim com os fãs […] A pior parte é ter que pagar e ter que ficar aprovando coisas o tempo inteiro, mas é isso o ônus e bônus de ser quem é.
Quem é você hoje?
“Eu acho que sou uma pessoa um pouco mais consciente, mais terapeutizada, menos explosiva, apesar de ser muito, estou procurando o caminho da evolução no sentido de cada vez procurar minha independência. Tipo eu quero tirar minha carteira de motorista, essas pequenas coisas. Acho que hoje sou uma pessoa mais independente e muito mais evoluída, terapeuticamente falando.”
Jade Baraldo para o We in The Crowd
Em entrevista, o duo SANTIN se abriu também na possibilidade de trabalhar com novos artistas que também se permitem arriscar artisticamente, pois antes nunca haviam produzido para terceiros, citando Marina Sena, Luísa Sonza, Ana Vitória e internacionalmente a cantora sueca Tove Lo.
E como você pretende levar essa turnê para os palcos? Em uma versão mais intimista ou cantar em arenas como muitos artistas tem feito?
Jade: Então, para cantar em arena eu teria que fazer uma adaptação do show que já tem, mas eu super toparia em fazer para abrir shows de algum artista. Mas o formato de show que tá agora é bem intimista, porque o álbum é muito intimista. Então é cortina de veludo, é como se você estivesse num bar mesmo antigo dos anos 30. Tipo nessa estética que é o show […] Uma estética showgirl. Então é uma estética mais antiga mesmo.
Ouça o álbum “Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho” em todas as plataformas digitais:
Assista o visualizer de “Eu e Você”, colaboração com Clau:





