Entre beats eletrônicos, samba de coco e uma forte conexão com a cultura popular nordestina, Luana Flores vem construindo um dos projetos mais autênticos da nova música brasileira. Cantora, compositora, DJ, percussionista e beatmaker, a artista paraibana mistura tradição com experimentação, criando um universo sonoro onde ambos caminham lado a lado.
Foi com o EP Nordeste Futurista que Luana chamou a atenção do cenário independente. O projeto, que mescla elementos EDM com manifestações populares do Nordeste, rendeu a artista uma vitória na categoria de Novo Talento no Prêmio SIM e deu origem a um audiovisual premiado em festivais de cinema.
Desde então, sua trajetória passou a ser marcada por encontros com nomes como TUYO, Juliana Linhares, Luísa & os Alquimistas e, mais recentemente, pelo programa de cocriação Brasil–França, onde colaborou com o rapper francês Thx4crying.
Agora, Luana se prepara para apresentar o trabalho mais pessoal da carreira. Em Cria do Sol Quente, seu primeiro álbum, a artista mergulha nas próprias memórias para falar sobre pertencimento, ancestralidade e infância, sem abrir mão do ritmo que se tornou sua assinatura.
Em entrevista à We In The Crowd, ela falou sobre a criança que inspirou o disco, o diálogo entre tradição e música eletrônica, a importância da representatividade LGBTQIAPN+ em sua trajetória e os encontros que ajudaram a construir um álbum que celebra memória e afeto.
Seu primeiro disco é uma imersão pelo Nordeste, em que você descreve o álbum como um retorno à criança, à semente e às memórias afetivas. Isso mostra o quanto você está conectada com suas raízes. Qual lembrança da sua infância você definiria como o pontapé para a construção desse trabalho? E o quão importante foi escolher essa temática para ser seu álbum de estreia?
O ponto de partida para a construção imagética e criativa do disco foi uma foto do meu aniversário de 3 anos, em que estou segurando meu primeiro microfone, do som “Meu Primeiro Gradiente”. Essa memória me atravessou de forma muito profunda, porque representa a primeira lembrança em que minha voz e minha expressividade foram amplificadas. Esse mesmo “Meu Primeiro Gradiente” também está presente na foto de capa do disco, criando uma ponte entre infância e tempo presente, entre memória e trajetória. Naquele momento, eu não imaginava tudo o que ainda viveria, nem os lugares aonde minha arte me levaria. A partir dessa imagem, comecei a criar analogias entre infância, sementes e o tempo presente.
Também percebo que a infância sempre esteve muito presente na minha trajetória artística. Tenho um público infantil muito forte, que está constantemente nos meus shows, e isso sempre me tocou profundamente. As crianças acessam a música e o corpo de um lugar muito verdadeiro, sem filtros, e me ensinam muito sobre presença, liberdade e brincadeira.
Sinto que uma das coisas mais valiosas que temos hoje é a memória — a capacidade de salvaguardar memórias, especialmente as afetivas. Elas nos presentificam, nos dão firmeza sobre o lugar que ocupamos e nos ajudam a compreender de onde viemos para entender quem somos. Escolher essa temática para meu álbum de estreia foi muito importante porque ela atravessa profundamente a minha trajetória. Falar sobre origem, pertencimento e memória também é falar sobre cura, transcendência e sobre a possibilidade de trazer mais leveza para a vida. É isso que costura toda a narrativa do disco: leveza, brincadeira, presença, força, coragem e fé.
A capa do disco é muito rica nas cores, em simbolismos e memórias. O que aquele rádio-cassete representa dentro da narrativa do álbum? O que ele estaria tocando se fosse o radinho da mini Luana?
Existe algo muito simbólico nisso, porque esse rádio-cassete — o “Meu Primeiro Gradiente” — carrega uma memória afetiva muito profunda da minha infância e representa um dos meus primeiros encontros com o som, com a música e com a amplificação da minha voz.
Pensar nele dentro da narrativa do álbum é quase como fechar um ciclo. É como se a mini Luana, que um dia brincou com aquele radinho imaginando mundos possíveis, pudesse agora escutar a artista que me tornei.
De certa forma, esse disco também é um diálogo entre essas duas versões de mim — a criança e a mulher — mediado pela música, pela memória e pela brincadeira.
Estamos no Mês do Orgulho, onde conseguimos ver o quão importante é celebrar cada singularidade e sinto que o seu trabalho traz muito isso. Como você acredita que a sua vivência e a sua identidade influenciam sua forma de criar arte?
Minha vivência e minha identidade atravessam profundamente tudo o que eu crio, porque não existe separação entre a artista que sou e a pessoa que habita este corpo, este território e esta história.
Ser uma artista nordestina, LGBTQIAPN+, mulher e brincante influencia diretamente meu olhar, minhas escolhas estéticas e as narrativas que decido colocar no mundo. Minha arte nasce das experiências que vivo, dos afetos que construo e também dos atravessamentos sociais e políticos que fazem parte da minha existência.
Criar, para mim, também é um ato de afirmação e liberdade. É poder existir com verdade, celebrar singularidades e abrir espaço para outras formas de sentir, amar e ocupar o mundo.
Acredito que quando nos permitimos criar a partir da nossa essência, também abrimos caminhos para que outras pessoas se reconheçam, se sintam representadas e compreendam que suas existências também importam e merecem ser celebradas.
Você sente que a música pode ser um espaço de acolhimento e resistência para pessoas LGBTQIA+? De que maneira?
Sem dúvida. A música sempre foi, e continua sendo, um espaço de acolhimento, expressão e resistência para pessoas LGBTQIA+. Historicamente, muitos de nós encontramos na arte um lugar de refúgio, de pertencimento e de liberdade para existir com mais verdade, especialmente em uma sociedade que tantas vezes tenta silenciar, apagar ou limitar nossas existências.
A música tem uma potência muito especial porque ela atravessa o corpo, o afeto e o coletivo. Quando ocupamos palcos, pistas, rodas e festivais com nossas vozes, nossos corpos e nossas narrativas, também estamos afirmando que existimos, resistimos e temos o direito de celebrar quem somos. Para mim, a música também é um espaço de cura, de encontro e de criação de comunidade. Ela acolhe, fortalece e cria redes de afeto fundamentais para que possamos seguir abrindo caminhos, especialmente para quem vem depois de nós.
O Nordeste tem produzido artistas LGBTQIA+ cada vez mais diversos e potentes. Como você enxerga esse movimento atualmente?
Vejo esse movimento com muita alegria e esperança. O Nordeste sempre foi um território de enorme potência criativa, mas durante muito tempo muitas dessas narrativas foram invisibilizadas ou atravessadas por olhares estereotipados. Hoje percebo cada vez mais artistas LGBTQIA+ nordestines ocupando espaços com mais autonomia, construindo suas próprias narrativas e ampliando as formas de representação sobre o que é ser dissidente de gênero e sexualidade dentro dos nossos territórios.
O que mais me encanta é perceber que não existe uma única forma de existir ou de criar. Há uma diversidade muito rica de estéticas, sonoridades, corpos, discursos e modos de presença, e isso fortalece toda a cena. Também acho muito importante que esse movimento aconteça sem abrir mão das nossas raízes, dos nossos sotaques, das nossas memórias e dos nossos modos próprios de produzir cultura. Existe muita potência em criar a partir do território, sem precisar se moldar a padrões externos. Tenho muito orgulho de fazer parte desse momento e de ver tantas artistas abrindo caminhos, criando redes de afeto, colaboração e resistência.
Entre todas as faixas, qual você acredita que melhor traduz a essência de “Cria do Sol Quente” e por quê?
Acredito que “Encantarya” (Chico Correa Remix), feat. Cátia de França, seja a faixa que melhor traduz a essência de Cria do Sol Quente. A música já começa com um verso muito simbólico, em que eu e Cátia nos afirmamos: “Sou cria de um sol quente, minha arma é o repente, queimando num lampião”. Esses versos carregam força, território, ancestralidade e pertencimento — elementos centrais de toda a narrativa do disco. Nessa canção também falo sobre as guardiãs da encantarya, que fui compreendendo serem as crianças, por carregarem em si essa perspectiva lúdica, livre e encantada sobre a vida. O remix de Chico Correa traz uma energia muito vibrante, dançante e contagiante. Sendo a faixa de abertura do álbum, ela já apresenta de imediato esse universo sonoro e simbólico que o disco propõe. Lembro que, durante a gravação dos visuais dessa música, Cátia de França me disse, muito feliz: “Voltei a ser menina”. Para mim, essa frase sintetiza profundamente a essência de Cria do Sol Quente, porque fala sobre memória, brincadeira, presença e sobre a possibilidade de reencontrar partes de nós que seguem vivas.
O álbum reúne artistas de diferentes gerações e territórios. Para você, o que essas trocas acrescentaram ao projeto? Como aconteceram esses encontros?
Uma característica muito forte do meu trabalho é colaborar com artistas nordestinas LGBTQIAPN+, além de transitar entre diferentes gerações. Acho muito engrandecedor criar com artistas mais velhas, porque existe uma troca de saberes, memória e ancestralidade. Ao mesmo tempo, também é muito gratificante me juntar com artistas mais novas para que possamos, juntas, abrir caminhos. Cada encontro dentro desse disco aconteceu de forma muito orgânica e carrega um significado especial.
Cátia de França sempre foi uma grande referência para mim, não só da música paraibana, mas da música brasileira como um todo. Gravar com ela foi a realização de um sonho. Juliana Linhares é uma artista que admiro profundamente. Em 2021, ela lançou o disco Nordeste Ficção, enquanto eu lançava Nordeste Futurista, e desde então senti que em algum momento precisaríamos criar juntas. Com Jéssica Caitano, a relação já vem de uma longa caminhada. Já temos uma colaboração anterior, então reencontrá-la nesse disco também foi revisitar uma trajetória de afeto, luta e pertencimento. Chocolate Remix eu conheci em um festival em Barcelona. Fiquei muito encantada com sua energia, autonomia e presença de palco. Depois, através de um projeto chamado “Latinese”, que reúne artistas latinos para colaborações, nossa conexão fluiu e assim nasce uma faixa internacional no disco. Na mesma faixa de Jéssica, também tenho a honra de contar com Tiquinha Rodrigues, uma mestra da rabeca por quem tenho profunda admiração.
Além delas, o disco traz outras participações especiais que ajudam a ampliar e fortalecer esse universo de afetos, territórios e encontros.
O que você espera que as pessoas absorvam depois de ouvir o álbum inteiro?
Espero que, depois de ouvir o álbum inteiro, as pessoas sintam alegria, leveza e vontade de dançar, de se expressar e de se permitir sentir. Desejo que o disco as convide a se abrir para a encantarya, para o riso e para experiências que também provoquem reflexão. Que, ao ouvi-lo, possam sentir orgulho e honrar o lugar de onde vieram, reconhecendo suas raízes, suas memórias e sua própria trajetória. Também espero que seja um trabalho que aqueça o coração e ative a criança interior, permitindo que ela volte a brincar, imaginar e existir com leveza e liberdade.
Muito do nosso público busca conhecer novos artistas e são atraídos por quem cria essa conexão de intimidade através do próprio trabalho. Como você se apresentaria para quem acaba de conhecer Luana Flores no We in The Crowd?
Luana Flores é, antes de tudo, uma brincante. É através da brincadeira — como linguagem, ferramenta de criação e forma de estar no mundo — que transita entre música, performance e audiovisual. Beatmaker, DJ, percussionista, cantora e compositora, utiliza ferramentas contemporâneas da música eletrônica para ressignificar e enaltecer as raízes da cultura nordestina e paraibana, construindo uma obra em que som, imagem, corpo, figurino, cores e direção estética dialogam de forma integrada, criando experiências sensoriais marcadas por ritmo, memória, pertencimento, encantamento e forte potência visual.





