Com a turnê passando pelo Brasil nesta semana, Lindsey Stirling fala sobre como transformar emoções em performance, a construção de personas para cada projeto e o aprendizado de dividir o processo criativo com sua equipe em entrevista ao We In The Crowd.
Sobre os sentimentos em cena
Como a Duality Tour expressa o contraste de sentimentos e emoções ao vivo, traduzir esse conflito interno para a linguagem visual do palco exige momentos de grande vulnerabilidade. Para Lindsey, um dos desafios mais difíceis dessa transição é justamente a quietude. Acostumada a construir performances marcadas pelo movimento e pelo impacto visual, ela comenta sobre o controle necessário para sustentar os momentos mais calmos do show.


“Acho que a coragem para capturar a quietude é algo difícil para mim como performer”, explica. “É fácil se apoiar no barulho, nas luzes e em muito movimento. Mas dar a si mesma o espaço para ficar parada e confiar que o público também vai embarcar e ser receptivo a esse momento mais silencioso exige confiança em si mesma e na plateia. Eu realmente gostei daquele momento do espetáculo que gira em torno da respiração e da quietude.”
Música e movimento
A habilidade de tocar violino enquanto executa coreografias sempre foi um dos grandes diferenciais de seus shows. Com o corpo e o instrumento tão conectados no palco, Lindsey reflete sobre como a experiência física de dançar impacta a criação de suas melodias, e explica que, embora a composição musical venha primeiro, é a resposta do corpo que guia a seleção final de sua tracklist.
“As músicas que geralmente acabam entrando nos discos são aquelas que inspiram movimento”, conta. “Não precisa ser necessariamente um ritmo dançante. Pode ser uma música suave e doce, mas ela ainda tem que me fazer sentir movimento.”
A construção de seus universos
Ao longo de sua carreira, Lindsey construiu identidades visuais muito marcantes para seus álbuns. Em vez de encará-las como histórias de personagens isolados, ela as vê como diferentes personas que representam partes de sua própria experiência artística.
A bailarina de Shatter Me, por exemplo, representa a libertação daquilo que nos prende ou limita. Já Artemis foca na escolha de encontrar a luz dentro de si mesma. “Mesmo que todas essas personagens venham das minhas experiências e perspectivas, eu realmente as vejo como coisas separadas, ideias separadas. Cada uma é totalmente sua própria persona”, afirma.
Com uma estética tão planejada e desenvolvida, a transição dessas narrativas para outras mídias parece um caminho natural, um passo que a artista já deu ao expandir o universo de Artemis para uma série em quadrinhos. Justamente por já ter essa base narrativa estruturada em uma graphic novel, quando questionada sobre qual de seus álbuns funcionaria melhor como um videogame de mundo aberto, a escolha foi imediata.
“O universo de Artemis seria muito jogável. Sempre me pareceu uma história em quadrinhos, um videogame ou uma série”, aponta a artista. “A construção desse mundo tem vilões, tem aventura. Definitivamente seria o mais amigável para um jogo.”



Compartilhando os bastidores
Acostumada a ter suas ideias inteiramente sob seu controle no início da carreira, levar essas visões para as grandes turnês exigiu de Lindsey um processo de aprendizado. Ela conta que tinha dificuldade em dividir funções e delegar tarefas, o que tornava os ensaios mais complicados: sua visão do projeto estava clara para ela, mas ainda não havia sido compartilhada com o restante da equipe.
Com o tempo e a convivência com sua equipe de longa data, o cenário mudou. “Tive que realmente aprender a delegar, a confiar, a me abrir e permitir que as pessoas brilhem”, relembra. “Saber que eles dão conta e confiar nisso fez com que as nossas turnês e nossos vídeos ficassem muito melhores. Mas isso só vem com a experiência, o tempo e o relacionamento.”
Produção de conteúdo na Era do TikTok
Tendo se consolidado como uma das estrelas independentes do YouTube (onde acumulou milhões de inscritos com suas performances), a artista precisou adaptar sua maneira de contar histórias ao formato de vídeos curtos das redes atuais, como Reels e TikTok.
Lindsey confessa sentir saudade dos dias em que narrativas longas dominavam as redes e o público acompanhava mais o processo de criação, mas prefere encarar a mudança de forma positiva:
“Você precisa encontrar a parte mais cativante da música, o gancho. Em vez de lutar contra ou odiar isso, eu tento achar a minha própria criatividade nesse cenário. É um desafio divertido.”
@lindseystirling Thank you Richmond for an amazing show we’re bouncing around the US for the next two months
♬ original sound – Lindsey Stirling
Questionada se teria algum conselho para essa nova onda de criadores de conteúdo, Lindsey diz que sua melhor estratégia é, na verdade, observar quem acabou de chegar. “É muito fácil bater o pé e dizer: “Eu sou das antigas e sei o que está acontecendo aqui”. Mas, na verdade, eu não sei. Está sempre mudando”, confessa.
“Honestamente, as melhores pessoas nas plataformas geralmente são as que acabaram de chegar, porque estão tendo sucesso agora. Elas não têm como depender do sucesso do passado para passar por essas mudanças nas mídias.” Mas ao refletir sobre o que diria aos novos criadores, Lindsey resume uma lição que aprendeu ao longo de mais de uma década de carreira: “Sejam flexíveis, e continuem olhando para o futuro para ver o que a próxima geração está fazendo.”
A volta para o Brasil e a energia dos fãs
A poucos dias de retornar ao país após um longo hiato, a artista guarda ótimas recordações de sua última passagem por aqui, em 2017, já que os shows previstos para março de 2020 precisaram ser cancelados em meio à pandemia. Agora, às vésperas do reencontro, ela destaca desde a experiência de conhecer uma autêntica churrascaria brasileira até, principalmente, a intensa troca de energia com o público local.
Para Lindsey, a energia dos fãs brasileiros, assim como em outros locais da América do Sul, como Chile e Argentina, transforma a própria experiência no palco. “Em alguns países, você apenas faz o show e continua entretendo, mas aí eu quero absorver isso. Quero ter um momento para realmente sentir esses corações”, conta.
O reencontro já tem data marcada: a Duality Tour chega à Vibra São Paulo no dia 2 de outubro, em apresentação única no Brasil. Ingressos estão disponíveis no site da Uhuu.

Assista a entrevista na íntegra:
Texto por: Reibe Vaz





