Entre repetição de line-ups e falhas na estrutura, o Porão do Rock volta a Brasília sob críticas sobre segurança, desgaste do público e a falta de renovação do festival.
O Porão do Rock começou de forma simbólica em Brasília, aproximando crianças e adolescentes da cultura por meio da distribuição de ingressos em escolas públicas e ações sociais ligadas ao festival.
Durante anos, o evento carregou a imagem de um festival popular e acessível: em edições anteriores, os ingressos chegavam a custar cerca de R$20,00 junto à doação de 1kg de alimento. Hoje, os valores ultrapassam facilmente os R$200,00, podendo chegar a mais de R$300,00 dependendo do setor e do lote.
O que antes representava um espaço democrático para a cena alternativa brasiliense passou a adotar uma estrutura cada vez mais elitizada, voltada principalmente para áreas VIP e lounges exclusivos. Nesse contexto, a principal crítica direcionada ao evento foi a posição das áreas premium à frente da pista comum, interferindo diretamente na visão do público que permaneceu horas aguardando os shows próximos ao palco. A mudança reacendeu reclamações antigas de frequentadores, que apontam um distanciamento gradual do festival em relação à proposta original.

Em 2026, o festival retornou com um line-up mais uma vez pouco inédito. Com bandas que já passaram pelo evento cerca de quatro vezes, como Dead Fish, o repertório contou com aproximadamente 15 atrações repetidas, incluindo nomes internacionais como Pennywise, que retornou ao Porão do Rock pela segunda vez. Com um histórico de bandas “residentes” no festival, o Porão do Rock, emblemático por sua diversidade, acabou caindo no limbo da repetição.


Mas isso não quer dizer que a repetição seja, necessariamente, algo ruim para o público. Muitos fãs que não conseguiram ver Angra, Rodox e Deviloof em edições anteriores aproveitaram o festival da forma mais clássica possível: em meio aos moshpits e a energia intensa que ainda mantém o Porão do Rock como uma resistência cultural.


O festival que cresceu como um marco da cena brasiliense, hoje parece se apoiar em ciclos repetitivos de artistas que o público local já está cansado de assistir. Sem grandes novidades no line-up, o Porão passou a mirar em bandas independentes para se manter na lista dos maiores festivais de Brasília. Entre elas, destacou-se a banda Lupa, que entregou um show energético e sustentou o público do início ao fim.
Outros artistas, como Marcelo Falcão, ex-vocalista d’O Rappa, trouxeram uma setlist variada com hits da banda e músicas da carreira solo. Com uma pirotecnia desorganizada e fora de sincronia, Tribo da Periferia assumiu o palco logo depois, abrindo espaço para novos gêneros dentro do festival e reforçando a tentativa do Porão de dialogar com diferentes públicos.


Apesar disso, a mudança também levantou questionamentos entre frequentadores antigos, que enxergam o evento cada vez mais distante de sua identidade original ligada ao rock alternativo e ao underground brasiliense.
O encerramento do festival ficou por conta da banda brasiliense Scalene, que apresentou um repertório repleto de canções favoritas aos fãs fiéis que permaneceram no evento até depois das 2h da manhã. O espetáculo marcou uma nova fase para Gustavo e Tomás Bertoni após a saída de Lucas “Lukão”, baixista oficial da banda desde os primórdios do grupo.
Mesmo com novos integrantes, o Scalene manteve o mesmo formato intenso de apresentação. A performance, no entanto, terminou em tragédia.


Na quina final do palco, havia uma estrutura de box truss posicionada horizontalmente e coberta apenas por um pano preto, fator que contribuiu para o acidente envolvendo Gustavo Bertoni. Apesar da sinalização e dos avisos prévios, o vocalista da Scalene acabou pisando no vão formado pelo tecido sobre a estrutura enquanto jogava palhetas para os fãs. Com isso, escorregou e caiu de uma altura aproximada de três metros, batendo a cabeça em caixas de som e em estruturas metálicas presentes no local.
Bertoni permaneceu desacordado por alguns minutos, enquanto seguranças, fotógrafos e até fãs tentavam prestar socorro rapidamente.
A infraestrutura do Porão do Rock contou com palcos excessivamente altos, fazendo com que fotógrafos e parte da imprensa oficial optassem por não ocupar a pit — espaço destinado à fotografia na frente do palco. Logo, após ser levantado, a brigada médica chegou e o artista precisou ser retirado por baixo do palco, já que a pit também não possuía uma saída adequada.

De acordo com a equipe do local, o vocalista foi rapidamente encaminhado à ambulância, onde recebeu os primeiros socorros e chegou a ironizar o acidente ao pedir para “ligarem para Dinho Ouro Preto”. Gustavo Bertoni sofreu duas lesões na cabeça, que resultaram em oito pontos e “história pra contar”. O artista explicou o acidente no Instagram e agradeceu ao público, produção e amigos envolvidos que o auxiliaram durante o ocorrido.
O Festival Porão do Rock de Brasília deveria acabar?
A história do Porão do Rock representa de forma simbólica a cultura brasiliense ao unir música, arte e ocupação cultural em um dos maiores festivais independentes do país. Desde sua criação, o evento fortalece a identidade jovem e alternativa de Brasília, valoriza artistas locais e acompanha as transformações culturais da cidade, mantendo viva a tradição do rock brasiliense enquanto abre espaço para novos estilos e expressões artísticas.
A resposta é não. O Porão do Rock não deve acabar. O fato é: o festival passou por uma readequação, e essa mudança trouxe desconforto para aqueles que já estavam acostumados com sua versão antiga. Atualmente, o Porão possui uma grande capacidade de bater de frente com grandes festivais da cena brasileira.
A adequação da infraestrutura é primordial para maior conforto de quem de fato importa: o público. As áreas VIP e Lounge devem ocupar uma área menor que não atrapalhe a visão do público e dos palcos principais, além de gerar maior conforto para a imprensa, segurança, fotógrafos, brigada e bombeiros que ocupam a pit do local.
O evento deve novamente se reorganizar de uma maneira que consiga manter o público antigo, que o conheceu ainda na época da escola, ao mesmo tempo que deve cativar um novo público, e para isso, se faz necessário o festival apostar em bandas ainda mais inéditas da cena do rock atual, indie brasileiro, hardcore, metal e é claro, investir em reuniões nostálgicas, além de abrir ainda mais espaço para bandas independentes da cena nacional, com ênfase na cena brasiliense, mantendo a pegada alternativa e independente que é característica do festival.
Enquanto outros festivais da cidade tiveram trajetórias mais curtas ou irregulares. O Green Move, por exemplo, acabou sendo descontinuado principalmente por dificuldades de financiamento e manutenção da estrutura de um evento gratuito de grande porte.
O CoMA, apesar de muito relevante culturalmente e de grande impacto na cena independente, também anunciou o encerramento de seu ciclo após quase uma década, citando que o modelo do festival deixou de ser sustentável na forma como vinha sendo realizado. Em comum, esses eventos enfrentam o mesmo problema: alto custo de produção e dependência de patrocínios e editais, o que torna difícil manter regularidade.
O Porão se destaca justamente por conseguir se manter ativo enquanto outros projetos importantes surgiram, marcaram a época e depois não conseguiram sustentar a continuidade na cena brasiliense.
Mas o público ainda julga, o Porão do Rock seria uma resistência cultural ou um festival dependente de um ciclo de repetição para ainda existir? O que podemos esperar das próximas edições?
E aí, o que você acha? O Porão do Rock merece um ponto final, ou não?






