Sete anos depois da última passagem pelo país, o BTS finalmente está de volta ao Brasil e, se tem uma coisa que já dá para afirmar antes mesmo das luzes do estádio se apagarem, é que essa semana vai ficar marcada na memória de muita gente. Hoje (28), o grupo sul-coreano sobe ao palco do MorumBIS, em São Paulo, para o primeiro de três shows da turnê ‘ARIRANG’ (que ainda passa pelo estádio nos dias 30 e 31 de outubro, todos com ingressos esgotados), e o impacto dessa passagem, como vamos ver por aqui, vai muito além das três noites de show.
Para entender o tamanho desse momento, é preciso voltar um pouco no tempo: a primeira vinda do grupo ao Brasil aconteceu em 2017, com a The Wings Tour, em uma casa de show para pouco mais de 15 mil pessoas e, dois anos depois, já com a ‘Love Yourself: Speak Yourself’, o BTS lotou o Allianz Parque em duas datas que acabaram virando DVD oficial. Então veio o hiato, quase quatro anos de pausa nas atividades em grupo para que os sete integrantes cumprissem o serviço militar obrigatório na Coreia do Sul – e, para muitas fãs brasileiras, essa espera foi marcada pela dúvida de quando (e se) eles voltariam a pisar aqui juntos.
A resposta veio em grande estilo. Lançado em março, ARIRANG é o primeiro álbum de estúdio do grupo desde 2022 e leva o nome de uma das canções folclóricas mais importantes da Coreia, reconhecida como patrimônio cultural pela UNESCO e associada à saudade e ao retorno para casa – o que, convenhamos, não poderia ser mais simbólico para uma turnê de reencontro. E é justamente aqui, em São Paulo, que o BTS encerra a etapa latino-americana, depois de passar por Bogotá, Lima, Santiago e Buenos Aires ao longo de outubro.
Ao falarmos de impacto, não podemos deixar de falar dos números. Segundo estimativas da SPTuris, as três apresentações devem movimentar mais de R$ 330 milhões na capital paulista (cerca de R$ 260 milhões em bilheteria e aproximadamente R$ 75 milhões em gastos de turistas com hospedagem, alimentação, transporte e comércio), com a expectativa de reunir mais de 250 mil pessoas no MorumBIS ao longo das três noites, sendo cerca de 50 mil delas visitantes vindos de fora da cidade, com um gasto médio estimado em R$ 1.500 por pessoa.
E não é segredo que grande parte desse público está viajando para estar ali. De acordo com o Hoteis.com, as buscas por hospedagem em São Paulo cresceram 50% em relação ao mesmo período do ano passado (a capital foi, inclusive, a única cidade brasileira a registrar esse aumento) e somente 36% dos ingressos foram vendidos para moradores da cidade, tendo em vista que fãs do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina aparecem entre os principais compradores. É o mesmo movimento que já comentamos por aqui quando falamos sobre como turnês e festivais estão se moldando para o público em 2026: o fator determinante não é mais a distância, mas sim o peso simbólico do evento para quem vai.
Mas o BTS não movimenta apenas os hotéis e restaurantes perto do estádio, a cidade inteira entrou no clima da turnê. A Ponte Estaiada, um dos cartões-postais paulistanos, ganhou iluminação roxa entre os dias 26 e 31 de outubro em homenagem ao grupo (em um projeto batizado de Purple Impact Brasil), o Centro Cultural Coreano no Brasil preparou uma programação gratuita para as fãs durante toda a semana, incluindo um Encontro ARMY no Centro Cultural São Paulo, e o Shopping Eldorado recebe a Semana BTS do Universo K-food Brasil, com gastronomia e produtos coreanos. Bairros como a Liberdade e o Bom Retiro, que já concentram boa parte da cultura coreana na cidade, também viraram parada obrigatória no roteiro de quem veio para os shows, afinal, quem viaja até aqui quer viver a experiência completa.
E é aqui que chegamos ao que, para muitas fãs, é o coração dessa história: a comunidade. Ser ARMY nunca foi só sobre ouvir as músicas, mas sim sobre fazer parte de algo maior, e os números deixam isso bem claro: foram cerca de 1,9 milhão de pessoas tentando comprar ingressos para as datas de São Paulo e mais de 222 mil assinaturas reunidas em um abaixo-assinado pedindo que o grupo recebesse a Chave da Cidade. O pedido não foi atendido (segundo o prefeito, a honraria não pode ser entregue a estrangeiros), mas ver a ponte mais famosa da cidade pintada de roxo já diz muito sobre a força que essa fanbase conquistou por aqui.
Essa sensação de pertencimento aparece nos detalhes, seja nos grupos que se organizam para viajar juntos, nas fãs que dividem quarto de hotel com pessoas que conheceram pela internet, na troca de photocards e pulseirinhas na fila ou nos projetos de fãs pensados com meses de antecedência para surpreender os integrantes durante o show. Para quem passou os últimos anos acompanhando o grupo de longe, estar no MorumBIS é também reencontrar uma comunidade inteira que esperou o grupo junto (e que, no final das contas, nunca deixou de existir).
Também não dá para falar de BTS no Brasil sem falar do contraste cultural e de como as B-ARMYs transformam isso em acolhimento. A cultura de fãs do K-pop nasceu na Coreia com códigos muito próprios: os fanchants gritados em coreano em momentos específicos das músicas, o lightstick oficial sincronizado com o palco, as regras de etiqueta nos shows… e as fãs brasileiras aprenderam tudo isso à risca, estudando a pronúncia dos fanchants, decorando as coreografias e respeitando cada tradição. Ao mesmo tempo, por mais que sigam o manual, fazem isso do jeito mais brasileiro possível, com coro de estádio entre uma música e outra, muito barulho, emoção à flor da pele e aquele calor que os artistas internacionais sempre dizem não encontrar em nenhum outro lugar do mundo.
É esse encontro entre o rigor da cultura coreana e a espontaneidade brasileira que torna a experiência tão única, e o acolhimento vale tanto para quem está em cima do palco quanto para quem está na arquibancada. Nas filas e nos arredores do estádio, é comum ver fãs mais experientes ajudando quem vai ao primeiro show, explicando os fanchants e garantindo que ninguém se sinta deslocado – o que, para quem chega de outro estado (ou até de outro país), faz toda a diferença.
No fim das contas, a passagem do BTS por São Paulo mostra que um show pode ser muito mais do que um show: é economia girando, cidade se transformando e, principalmente, uma comunidade que atravessou anos de espera e chega ao MorumBIS mais unida do que nunca. E, se a primeira noite da turnê ‘ARIRANG’ no Brasil corresponder à energia que as B-ARMYs vêm construindo desde o anúncio, os sete integrantes vão entender, mais uma vez, por que o Brasil não esquece deles.
O BTS se apresenta hoje (28) e nos dias 30 e 31 de outubro no Estádio MorumBIS, em São Paulo, com início dos shows marcado para as 20h e abertura dos portões prevista para as 16h. Temos certeza de que essas 3 noites ficarão marcadas na história de São Paulo (e do Brasil)!




