Lexie Liu é daquelas artistas que não cabem em uma prateleira só. Cantora, produtora e compositora chinesa, ela se consolidou como uma das vozes mais interessantes do pop contemporâneo ao misturar sensibilidade, ousadia e uma curiosidade criativa que atravessa idiomas e referências.
Em Teenage Ramble, seu primeiro disco totalmente em inglês, essa busca ganha fases ainda mais íntimas. O álbum soa como um diário da adolescência em movimento, equilibrando a estética pop dos anos 2000 com referências atuais do indie em faixas que falam de crescimento, contradições e autoconhecimento.
Esse projeto marca um novo capítulo na trajetória de Lexie Liu. Mais solta, mais direta e curiosa como nunca, a artista transforma memórias e perguntas em pop feito para dançar, pensar e sentir, tudo ao mesmo tempo. Foi nesse clima que conversamos com ela sobre crescer, criar em outra língua e o que vem por aí. Confira a entrevista completa:
Vamos começar falando de Teenage Ramble, que marca um momento muito especial na sua carreira. É o seu primeiro projeto inteiramente em inglês e traz uma estética Y2K, com referências claras aos anos 2000. O que te atraiu nessa era e como ela reflete o momento de vida que você está vivendo agora?
Eu cresci ouvindo muita música Y2K. Escutava todos os dias no caminho para a escola e nos intervalos das aulas. Aquilo era uma grande fuga para mim, longe dos estudos e da rotina diária, quando eu ainda era uma criança em Changsha, na China, imaginando todas aquelas grandes divas do pop dançando ao som da música eletrônica.
Era um mundo muito diferente do meu, e isso naturalmente me levou a querer explorar meu próprio som dentro desse universo.
Agora que estou em uma fase da vida em que tenho mais liberdade na minha música, e sendo esse meu primeiro projeto totalmente em inglês, sinto que é uma ótima forma de conectar minha imaginação atual com quem eu era quando criança.
Quando você apresentou o EP nas redes sociais, muitas pessoas, especialmente mulheres jovens, se sentiram profundamente conectadas. Existe essa sensação compartilhada de que crescer vai trazer respostas, mas às vezes traz ainda mais perguntas. Como foi transformar essas vulnerabilidades em música?
A música é um lugar seguro para eu confessar coisas. Consigo ser honesta e vulnerável através dela. Quando as pessoas escutam, elas entendem o sentimento e reconhecem a própria vulnerabilidade. Acho que essa é uma conexão muito bonita, mas ela só acontece se eu for honesta primeiro. Se eu me abrir, as pessoas conseguem sentir.
Este é o seu primeiro álbum totalmente em inglês. Trabalhar em outro idioma te deu uma sensação de liberdade emocional ou te deixou mais exposta de alguma maneira?
O inglês é minha segunda língua. Normalmente escrevo em mandarim e inglês, alternando entre os dois. Existe uma teoria de que as pessoas acessam lados diferentes da própria personalidade dependendo do idioma que falam e eu sinto que isso é verdade.
O inglês é mais direto, é emocionalmente mais cru. O mandarim é mais reservado e, às vezes, mais sugestivo, mas também muito bonito. Usar apenas o inglês faz parecer que estou escondendo uma parte de mim, a parte em mandarim, enquanto deixo o lado em inglês ocupar todo o espaço. É divertido e é uma experiência nova.
Mesmo sem uma turnê anunciada ainda, vamos manifestar um pouco. Você já começou a imaginar como pode ser um show dessa nova era?
Tenho expectativas muito altas para as minhas performances. Quero que a produção seja realmente boa para conseguir trazer tudo o que está na minha cabeça para o mundo real, para as pessoas verem e sentirem. Muita coreografia, luzes, fogos… Tudo isso (risos). Vamos chegar lá um dia.
Ao longo da sua carreira, você viveu colaborações muito diferentes, de artistas como Yuqi, do (G)I-DLE, a Miyavi, além de fazer parte do universo K/DA. O que você busca ao decidir colaborar com alguém?
Antes de tudo, precisamos nos conectar com a música. Todas as colaborações partem do fato de que ambas as pessoas amam aquela canção e podem contribuir com algo. Também é uma ótima forma de se comunicar com outros artistas, é como ter uma conversa sem precisar falar.
Você começou sua carreira muito cedo, participando de programas como K-pop Star e The Rap of China. Olhando para trás, o que esse período te ensinou sobre você mesma?
Foram experiências muito importantes para viver na adolescência. Eu tinha 16 anos no K-pop Star e 19 no The Rap of China. Esses programas me mostraram como o mundo real funciona, principalmente saindo daquela proteção da família e entrando na indústria. Percebi que, para ser uma artista de verdade, é preciso trabalhar muito mais do que aquilo que as pessoas veem na tela.
Você já citou inspirações muito diversas ao longo dos anos, incluindo a banda brasileira Cansei de Ser Sexy. O que te conecta a artistas de contextos culturais tão diferentes?
A música do CSS tem essa energia meio maluca que eu procuro dentro de mim. Essa expressividade, a alegria e até a raiva, mas de um jeito muito legal. Os instrumentais e os vocais são ousados e sem medo. Parece uma parte de mim que eu nunca conseguiria ser, então admiro muito. É uma das minhas bandas favoritas.
No geral, para mim, hoje em dia o contexto cultural já não é uma barreira. Estamos muito conectados. A gente simplesmente encontra aquilo com que se identifica, apesar do idioma ou da cultura. A gente apenas fixa os olhos no que ama.
Você já esteve no Brasil antes, mas apenas como turista. Que memórias ficaram dessa viagem e como você imagina que será voltar para um show?
Minha primeira impressão foi o quão longe era, tipo foi a viagem mais distante que já fiz. É absolutamente lindo, e as pessoas são muito acolhedoras. Fui ao Rio e depois a Trancoso.
Quando eu tuitei que estava no Brasil, esse se tornou o tweet com mais curtidas da minha vida, mesmo sem ser sobre música. Isso me mostrou o quanto os fãs brasileiros são animados. Mal posso esperar para voltar para um show de verdade.
Os fãs brasileiros realmente te amam e estão sempre torcendo para te ver por aqui. Você gostaria de deixar uma mensagem para eles?
Eu ainda não tenho datas, mas estou preparando um novo projeto para que nosso encontro aconteça em breve. Estou trabalhando nisso e mal posso esperar para encontrar vocês.





