Uma das vozes mais icônicas da geração, Sam Smith está de volta com seu novo álbum, Hazel Eyes. O sucessor de Gloria (2023) traz um artista ainda mais inspirade e apaixonade, em um trabalho que lembra a sua estreia com In the Lonely Hour, mas também expressa sua evolução.
Em “Gloria”, Smith abraçou ainda mais a cultura queer e apareceu com um visual repaginado, das músicas às roupas. Depois dos singles dançantes e visuais escandalosos, em hits como “I’m Not Here to Make Friends” e “Unholy”, parceria com Kim Petras, Smith declarou ao The Guardian que estava “procurando segurança e conforto na música”, e daí surgiu a ideia de escrever um álbum que capturava “a essência de de se apaixonar profundamente”.
E é mais fácil falar sobre o amor quando se está amando. O título Hazel Eyes faz uma referência aos olhos de seu companheiro, Christian Cowan, que são castanhos-claro/cor-de-avelã. Inclusive, a deliciosa faixa de abertura “Everlasting Love” teve sua primeira metade escrita logo antes seu primeiro encontro com Cowan. Pelo visto, ele aceitou ser seu parceiro por muito mais do que uma noite – Cowan e Smith anunciaram o noivado no último mês de julho.
Essa essência foi traduzida também na paleta de cores, utilizada pela primeira vez por Smith. O filtro sépia e os tons amarronzados se unem junto à uma filosofia estética que acompanha as músicas: um guia familiar, baseado em uma afinidade de toda a vida com rios, na vila de Cambridgeshire, onde cresceu e recarregava suas energias. Apesar de residir em Nova York, Smith pensou estrategicamente em como incluir os sons e letras da Big Apple dentro da natureza acolhedora e doméstica deste álbum.

Embora ame o pop comercial, essa não era a ideia da vez. Sam quis escrever com amigos que não eram compositores de hits pop, reunindo um pequeno grupo que continuasse junto durante todo o processo. As sessões de estúdio aconteceram dos mais variados horários, incluindo sessões às 1h da manhã com os Dap-Kings, a banda que antigamente acompanhava Sharon Jones.
“Foi simplesmente libertador, e música é sobre isso.”
– disse para o The Guardian.
Considerado pelo próprio artista como “um relato sincero da minha vida nos últimos anos e um refúgio acolhedor para quem precisar”, Smith entrega ao público um de seus trabalhos mais pessoais, que levou cerca de 3 anos para ser produzido. E pela primeira vez, assinou a coprodução de todo o disco. Na maior parte, Sam foi cantando partes para os músicos, que recriaram a melodia nos instrumentos.
A divulgação do álbum começou muito antes do seu anúncio: desde o ano passado, Sam apresentou alguma das novas canções em sua residência “To Be Free”, realizada nos EUA. A faixa que deu o título à turnê começou a ser escrita e gravada na semana em que Sam mudou seus pronomes – ainda no processo do álbum anterior – e basicamente se tornou a inspiração para todo o restante que viria a ser Hazel Eyes.
Faixas como o lead single “My Guy” e a country “Constant Companion”, que ganhou um videoclipe no mesmo dia do lançamento do álbum, foram apresentadas ao público em primeira mão.
É muito interessante reparar no contraste entre “My Guy”, letra que expressa romantismo e devoção, e “When He’s Gone”, uma das faixas mais sombrias do álbum, sobre dependência emocional. O resultado é uma sequência interessante, e o destaque fica para a produção de “When He’s Gone”, com o complemento de um coro e guitarra imponente conforme a música avança.
E não são apenas essas duas faixas que dialogam. A mente de titânio de Sam Smith também entrelaça faixas como a deliciosa “Love is a Stillness” e “Thief”, que fala sobre os momentos em que o amor é tão obscuro que nem parece ser amor.
É um álbum poético, com Sam pronte para mergulhar em temas controversos sobre as diversas fases de um relacionamento, e corajose para ousar em diferentes ritmos. Smith transita por diversos gêneros e melodias, com destaque para a sensual “Moondance”, particularmente, minha favorita do álbum. “Sugar Rush”, outra faixa sexy, tem backing vocals bem marcados e cheio de personalidades.
“Oh Mother”, faixa robusta e com uma produção refinada, é uma parceria com o The TwoCity Chorus e traz o diálogo entre uma mãe e um filho que acabou de passar por uma desilusão amorosa. “Dá para sentir a fúria da mãe, mas também ela incentivando o filho a perserverar. Me inspirei em minha mãe, ela é muito forte”, disse em um relato sobre a produção do álbum. É uma das faixas mais ousadas do álbum em todos os termos, dos vocais refinados à letra afiada. Smith contou que foi um verdadeiro desafio, tanto vocalmente, quanto tecnicamente, mas o resultado da sua voz alinhada ao coral foi impressionante.
Para quem gosta das tradicionais baladas melancólica de Sam, “To Be Free” fecha o álbum com chave de ouro. Outra parceria com o The TwoCity Chorus, esta última música começou a ser gravada antes da gravação de “Unholy”. A faixa começou a ser escrita na semana em que Sam mudou seus pronomes e basicamente se tornou a inspiração para todo o restante que viria a ser “Hazel Eyes”.
O resultado é um trabalho coeso, bonito, agradável de ouvir e, é claro, perfeito para quem vivencia ou já vivenciou todas as fases do amor.
Por último, fica a bela mensagem que Sam deixou sobre seu novo álbum no Instagram:
“Acredito, mais do que nunca após este disco, que o amor é a cura, a música é um santuário e a honestidade é a minha estrela-guia“. E mais uma vez, fica nítido que ele conseguiu.





