Bad Bunny voltou a se apresentar no Allianz Parque no sábado (21) em uma noite que já nascia histórica. Essa foi a segunda apresentação do cantor porto-riquenho no país, logo após a performance de sexta-feira.
A abertura ficou nas mãos da banda porto-riquenha Chuwi que, além de encantar a todos com suas músicas sobre luta e identidade boricua, com a sensibilidade de incluir traduções em português no telão, entregou um show de simpatia impossível de não se apaixonar.
Já às 20h20, dez minutos antes do início oficial, o telão horizontal gigante que ia de ponta a ponta do palco se iluminou com um vídeo especial: dois atores brasileiros explicavam que, se chamassem o Bad Bunny direitinho, ele vinha.
Dito e feito. Depois de um grande coro com “Benito, hijo de Benito, le decían Tito. El mayor de seis, trabajando desde chamaquito” (em português, “Benito, filho de Benito, o chamavam de Tito. O mais velho de seis filhos, vem trabalhando desde pequenininho”), ele apareceu em um momento que conseguiu congelar a atmosfera no meio da cidade mais agitada do Brasil.
Com uma banda especial e um cenário visual deslumbrante, o artista se mostrou emocionado e levou alguns segundos para absorver toda aquela energia, até seguir para uma sequência inacreditável com LA MuDANZA, Callaíta e PIToRRO DE COCO.
A setlist foi bem coesa e mostrou algumas das suas fases na música, com um número maior de faixas de Un Verano Sin Ti e, claro, DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Participações especiais direto de Porto Rico, como a de Chuwi em WELTiTA e a de RaiNao em PERFuMITO NUEVO, animaram ainda mais o público, que parecia saber cantar cada palavra que já havia saído da boca de Benito algum dia.
O destaque fica para NUEVAYoL, BAILE INoLVIDABLE e a própria DtMF, que transformaram o estádio em uma verdadeira catarse coletiva, cada uma à sua maneira. Enquanto a primeira te fazia pular, rir e cantar como se não houvesse amanhã, as duas últimas passavam como um filme na cabeça. Era como se todas as memórias com as pessoas mais preciosas que encontramos pelo caminho transbordassem em um coro inesquecível. Parecia que todos que construíram cada pedacinho de nós estavam ali presentes.
O show do Bad Bunny traz muito esse sentimento de aconchego, de casa. Eram mais de 40 mil pessoas desconhecidas, de países diferentes, estilos de vida distintos, e mesmo assim parecia que tudo estava em perfeita sintonia, quase como se todos tivessem ensaiado para aquele momento antes, mas de uma maneira extremamente confortável.
E, falando em casa, é preciso mencionar a Casita, o palco secundário localizado no fundo do estádio. Sinceramente, em uma opinião pessoal, não acho válido se apegar às polêmicas escolhas de quem entra e quem não é convidado para lá neste momento. Mantendo a magia do que foi aquela noite, é mais bonito pensar em como foi especial para as pessoas da pista comum e da cadeira inferior terem a oportunidade de vê-lo tão de perto, algo raro hoje em dia, principalmente com a popularização dos PITs e das premiums das premiums, criadas quase que para afastar a maior parte dos fãs do seu artista favorito.
Com sucessos como Tití Me Preguntó, Me Porto Bonito, MONACO e CAFé CON RON, ele apresentou um set com mais de 15 músicas por lá, alternando entre interações no chão com a plateia e momentos na “laje” da casa, de onde conseguia ver ainda mais gente. Um dos momentos mais especiais foi quando ele parou para acalmar uma fã chamada para iniciar VOY A LLeVARTE PA PR com o famoso grito “ACHO PR ES OTRA COSA”.
E, no fim, esse é o Bad Bunny: não tão mau quanto o nome, mas um cantor de coração enorme, que se importa com todos de maneira igual, em um carinho que aquece o coração e em uma gratidão que dá para sentir de onde quer que você esteja.
Bad Bunny está mais em alta do que nunca. Em um mês em que se apresentou no Super Bowl e venceu a maior e mais prestigiada categoria do Grammy, Álbum do Ano, ele ainda reforçou que aquelas duas noites no Brasil se tornaram algumas das melhores da vida dele. Isso só mostra o quanto a comunidade brasileira é tocante para um artista, principalmente para um que vem da América Latina.
Muitos dizem que o Brasil não é um país latino, seja por um recorte específico ou de forma generalizada, e é até engraçado ver essas frases circulando sob uma cultura com tanto amor, força e paixão, que lutou por séculos pelo direito de se libertar e ao mesmo tempo de pertencer. Uma cultura tão ligada aos nossos ancestrais e países vizinhos, conectada pela valentia, determinação e intensidade, sem perder a simpatia em qualquer situação.
Nós somos o povo que luta com um sorriso no rosto, que dorme em cadeiras nas festas quando criança, que faz festa na laje no fim de semana, que vira a noite na véspera de Natal, que vai à praia nos feriados, que cresce vendo os avós sentados em cadeiras de plástico na rua.
Apagar nossas origens e tentar nos tirar de uma comunidade que é nossa por direito, vivência e amor é injusto demais, e isso ficou mais claro do que nunca com a passagem da turnê DeBÍ TiRAR MáS FOToS em São Paulo.
Óbvio que o Brasil é um país muito particular. No fim do dia, temos mesmo o nosso jeitinho de fazer as coisas. Nosso amor pela nossa cultura interna é grande demais, nossa bolha musical é difícil de penetrar, e Benito mostrou saber disso em diversos momentos, com um respeito e um carinho fora do comum, demonstrando um interesse genuíno em adentrar tudo isso que temos.
Entre camisas do Brasil, chinelos Havaianas, homenagens ao samba e ao funk, telões com imagens de São Paulo, segmentos dedicados a comidas de diferentes estados, menções ao Pelé, discursos em português e muito mais, ele fez questão de mostrar que reconhece não só a nossa latinidade, mas também o que nos faz especiais dentro dela.
E, pela primeira vez em muito tempo, graças a ele, conseguimos sentir que o mundo pôde ver um pouquinho disso também.





