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Jão voltou aos palcos na noite desta sexta-feira (25) para dar início à nova turnê, Memórias Póstumas, diante de cerca de 60 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo. Com ingressos esgotados, o cantor transformou o estádio em um grande palco para falar sobre vida, morte, luto e, acima de tudo, sobre as diferentes formas que encontramos para continuar amando mesmo depois de perder alguém.
Depois de mais de dois anos longe dos palcos, o retorno já carregava uma expectativa enorme. O novo álbum nasceu de um período particularmente íntimo da vida de Jão, atravessado pela perda de seu pai em 2025, e essa experiência pessoal se tornou parte importante da construção de Memórias Póstumas. O que poderia resultar em um espetáculo excessivamente melancólico, porém, ganha outra dimensão quando levado ao palco: Jão transforma a dor em uma experiência que mistura música, teatro, dança e uma produção de proporções gigantescas.
O conceito do espetáculo gira em torno da relação entre vida e morte, conduzido por cinco monólogos interpretados pela atriz Isabel Teixeira, que interpreta Pilar, na novela Quem Ama Cuida, que surge no palco como a própria Morte. Cada aparição funciona como um capítulo diferente da narrativa e atravessa estágios do luto, criando uma espécie de diálogo entre aquilo que Jão canta e as diferentes maneiras de lidar com a ausência.
A escolha de Isabel é particularmente interessante porque faz com que o show não seja apenas uma sequência de músicas conectadas por vídeos ou interações entre faixas. Existe uma história sendo narrada pela própria Morte sobre O Lobo e as discussões sobre a existência humana. A Morte observa, provoca, acompanha e, de certa forma, conduz Jão durante sua própria jornada.
Enquanto isso, o palco 360º transforma o estádio inteiro em parte da experiência. Posicionado no centro do espaço, ele conta com estruturas que se movimentam e um elemento que chama atenção desde os primeiros momentos: uma espécie de piscina no centro do palco, onde Jão e seu ballet entram, dançam e se deixam molhar ao longo da apresentação.
A água, nesse caso, deixa de ser apenas um recurso cenográfico e passa a fazer parte da linguagem do espetáculo. O cantor literalmente se coloca dentro daquele elemento enquanto interpreta algumas das músicas mais carregadas emocionalmente da noite, criando imagens que seriam difíceis de reproduzir em uma apresentação convencional. O palco 360º já era anunciado como um desejo antigo de Jão e, agora, se torna realidade em uma produção que ocupa o estádio de todos os lados.
E não é apenas a estrutura que chama atenção. Ao longo das mais de duas horas de espetáculo, também acontecem trocas de figurino, interações diretas entre Jão e o ballet e momentos dedicados exclusivamente aos bailarinos e à banda, que deixam de ocupar apenas o papel de apoio para também assumirem o protagonismo do palco.
Em determinado momento, Jão fala sobre como essas pessoas são uma inspiração para ele justamente por amarem verdadeiramente o que fazem e não deixarem que o cansaço de tantos ensaios diminua a entrega. É uma homenagem que combina com a própria essência do espetáculo: falar sobre aquilo que permanece mesmo quando o corpo está cansado e sobre encontrar motivos para continuar.
Enquanto grandes artistas internacionais frequentemente encontram dificuldades para transportar estruturas de turnês para o Brasil, Jão constrói uma experiência de grande escala pensada para funcionar aqui, com atenção aos detalhes e uma preocupação também com diferentes possibilidades de acesso do público. Os ingressos partiram de R$ 130 na meia-entrada da cadeira superior, enquanto o pacote VIP Super Fã chegou a R$ 995 na meia-entrada.
No palco, porém, todo esse tamanho não tira a intimidade que está no centro do projeto. A setlist, composta por 26 músicas, percorre o universo de Memórias Póstumas, mas também revisita diferentes momentos da carreira de Jão, passando por seus quatro álbuns anteriores e recuperando músicas que já fazem parte da memória afetiva de seus fãs. É uma escolha que impede que o espetáculo se transforme apenas em uma apresentação do disco novo e, ao mesmo tempo, mostra como as diferentes fases da carreira podem conversar dentro da mesma narrativa, inclusive com novas versões e arranjos de músicas já apresentadas antes.
No Nubank Parque, era possível encontrar diferentes gerações dividindo o mesmo espaço: mães, filhas, avós, amigos e casais cantando as mesmas músicas, dançando, pulando e se emocionando juntos. É uma das características mais bonitas da relação construída por Jão com sua audiência: mesmo quando as letras partem de experiências extremamente particulares, elas encontram maneiras diferentes de pertencer à história de quem está do outro lado.
Um dos momentos mais marcantes dessa troca acontece em “Meninos e Meninas”, quando Jão recebe Érika Hilton, deputada federal e uma das principais vozes da política brasileira na defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA+, para cantar a música que aborda a descoberta da bissexualidade do artista. Ao final da apresentação, Hilton celebra integrantes da comunidade e deixa uma mensagem sobre o amor como uma forma de resistência.
É uma participação que amplia o significado da música dentro daquele estádio: aquilo que começou como uma experiência pessoal de Jão ganha novas camadas quando cantado diante de dezenas de milhares de pessoas.
Depois de atravessar diferentes sentimentos ligados ao luto, a história chega ao momento em que A Morte mata o Lobo. No pós-vida, ele escolhe amá-la e permanecer fiel a esse sentimento, deixando para trás a raiva e abrindo caminho para “O Amor”.
A partir daí, o show entra em uma sequência musical que cresce em intensidade. “O Amor”, “Religião” e “Santo” ganham novos arranjos com uma sonoridade mais rock, acompanhados pela força das guitarras, da bateria e pela entrega de Jão e do ballet.
Na performance de “Religião”, Jão abraça A Morte enquanto entoa “nem a morte me assusta mais”. A frase deixa de ser apenas um verso e passa a funcionar como a conclusão de toda a jornada que o espetáculo vinha construindo: depois de encarar a perda, a raiva e o luto, existe finalmente espaço para aceitar aquilo que não pode ser mudado.
Em “Santo”, um dos momentos que mais conectam passado e presente, Jão recupera a coreografia apresentada no Lollapalooza Brasil 2023, pouco antes do anúncio de sua pausa. Agora, diante de um estádio inteiro, o mesmo movimento ganha outro significado: é quase como assistir ao reencontro do artista com uma versão de si mesmo que ficou suspensa por alguns anos.
A sequência continua com “Passeios Noturnos”, faixa que já carrega uma identidade mais forte no rock e ganha ainda mais força ao vivo com a presença marcante das guitarras e da bateria enquanto o artista dança e interage diretamente com A Morte. É um bloco que cresce progressivamente, tanto na intensidade musical quanto na entrega de Jão e do ballet.
E então, quando parece que o espetáculo poderia terminar justamente no auge dessa energia, tudo desacelera.
Antes de chegar à última música, porém, Jão faz questão de voltar à origem de tudo. “Catedral”, faixa que abriu a era Memórias Póstumas e funciona como lead single do álbum, ganha uma introdução diferente. Antes de cantar, Jão lê uma carta escrita por ele mesmo, contextualizando a composição e convidando o público a dedicar aquela música a alguém que já partiu, mas continua presente na memória.
E é nesse momento que a relação entre música e espiritualidade aparece de uma maneira bastante bonita. Jão fala sobre como cada pessoa pode encontrar sua própria forma de se conectar com o divino, em diferentes lugares e através de diferentes experiências. Para ele, essa conexão acontece pela música e pela composição.
Depois de uma sequência marcada por rock, guitarras, bateria, dança e toda a intensidade do último ato, “Catedral” devolve o espetáculo à sua essência. É uma escolha que combina perfeitamente com tudo que o show vinha dizendo desde o primeiro monólogo: talvez a morte não seja capaz de apagar aquilo que continua sendo lembrado, cantado e sentido.
E, para uma turnê que poderia facilmente se apoiar apenas na grandiosidade de um estádio lotado, é interessante perceber como Jão escolhe terminar justamente no lugar mais íntimo possível: uma carta, uma música e uma lembrança.
É como se, depois de passar mais de duas horas falando sobre morte, Jão terminasse justamente celebrando a própria volta.
Memórias Póstumas consegue, então, fazer uma coisa bastante difícil: transformar uma história profundamente pessoal em um espetáculo capaz de alcançar um estádio inteiro sem perder sua intimidade.
A produção é enorme. O palco é enorme. O público é enorme. Mas, no centro de tudo, existe um cantor falando sobre aquilo que talvez seja uma das experiências mais universais que alguém pode viver: perder, lembrar e aprender a continuar.
Talvez seja justamente essa a grande força dessa nova fase de Jão. Ele não tenta transformar a dor em algo bonito. Ele transforma a dor em algo que pode ser compartilhado.
Depois de uma estreia dessa dimensão, novas datas da Memórias Póstumas Tour ainda devem ser anunciadas em breve, e São Paulo pode não ter visto o último capítulo dessa história.





