Nome: Erin LeCount
Idade: 23 anos
Origem: Essex, Inglaterra
Artistas favoritos: Lorde, Robyn e Lana Del Rey
Para quem gosta de: BANKS, Caroline Polachek, Grimes e The XX
Alguns artistas surgem com singles soltos até encontrarem um som, outros já começam com uma narrativa inteira nas mãos.
A britânica Erin LeCount claramente pertence ao segundo grupo. Mesmo no início da carreira, ela já constrói seus lançamentos como capítulos de uma história maior, onde estética, conceito e emoção caminham juntos.


A relação com os palcos começou muito cedo, aos nove anos, quando já se apresentava em microfones abertos nos pubs de Essex e em karaokês. No ensino fundamental, seu professor de música, Peter, a deixava usar o The Hermit Club em Brentwood, todo final de semana para que Erin praticasse com bandas, fazendo covers — o que a levou a ganhar um bom dinheiro como artista de rua nessa época, muito antes de entender de forma consciente o que significava se expor para o mundo.
Pouco depois, sua passagem pelo The Voice Kids mudou completamente a forma como ela enxergava o próprio talento: ali a música deixou de ser só diversão e passou a se tornar algo técnico. Na busca por autonomia, aprendeu a produzir suas próprias músicas sozinha ainda na adolescência, brincando no GarageBand.
Toda essa versatilidade e autonomia na produção acabaram abrindo portas para além da indústria fonográfica tradicional. No início de 2025, a escritora Suzy Miller e o diretor Justin Martin se depararam com os vídeos de Erin no TikTok e a convidaram para assinar a trilha sonora da peça Inter Alia. Ela convidou seu amigo e produtor James Jacob (Jakwob) e, juntos, desenvolveram toda a identidade sonora do espetáculo estrelado por Rosamund Pike (Garota Exemplar).

Essa força artística segue presente em tudo que ela faz hoje. As letras carregam uma vulnerabilidade íntima, enquanto a produção caminha por um eletrônico atmosférico influenciado por nomes como BANKS, Caroline Polachek, Grimes e The XX.
Antes mesmo de construir uma base gigante de fãs, algumas músicas já tinham encontrado seu caminho na internet. Faixas como “Silver Spoon” e “Marble Arch” começaram a aparecer em edits das séries Heated Rivalry e Normal People, e vídeos conceituais, muitos deles relacionados a imagem corporal e dismorfia, temas que conversam diretamente com suas letras. Erin sempre comentou o quanto amava assistir esses conteúdos surgindo, como se as músicas ganhassem novas camadas visuais através do público.
No meio desse processo, ela também lançou no Spotify um mashup que une “White Ferrari” do Frank Ocean com “I Know the End” da Phoebe Bridgers e mostra um pouco do universo sonoro que molda sua identidade.
Mas é nos EPs que a história realmente começa a tomar forma.
EP 1 — Soft Skin, Restless Bones
Esse primeiro projeto funciona como a porta de entrada para o universo emocional da Erin, trazendo uma sensação muito forte de intimidade entre público e artista. As músicas soam quase como páginas de diário, girando em torno de insegurança, identidade e uma sensação constante de não pertencimento.

Podemos até mesmo dizer que esse EP estabelece o tom da sua discografia inteira, apresentando a narrativa que ela continuaria desenvolvendo nos próximos lançamentos. A produção, embora mais minimalista, já apontava para a estética que viria depois, misturando sintetizadores, vocais suaves e uma atmosfera melancólica.
E a parte mais inacreditável? Erin faz praticamente tudo, desde escrever e produzir as faixas até brincar com efeitos sonoros, como o layering vocal, que nos dá esse resultado de coral (mas, sim, feito por uma mulher só).
O som consegue nos dar uma sensação real de espaço vazio, tanto que ela chegou a gravar sessões ao vivo direto das ruínas de uma igreja em Londres, o que encaixa perfeitamente com a proposta.
O EP “Soft Skin, Restless Bones” foi o que deu o contrato com a gravadora Good As Gold, fundada pelo produtor Kurtis McKenzie (conhecido pelos seus trabalhos com Kendrick Lamar, Doja Cat e Selena Gomez).
EP 2 — I Am Digital, I Am Divine


Se o primeiro EP parecia íntimo e introspectivo, com I Am Digital, I Am Divine a expansão do universo musical da Erin nos traz uma agradável surpresa, quase como um testemunho do seu crescimento artístico.
O título do projeto representa uma afirmação vinda de uma máquina, enquanto tenta se convencer de que é humana. E a própria Erin explicou que vê seu cérebro assim, como um computador, e que repetir afirmações positivas às vezes a fazia se sentir robótica. Portanto, “Digital” representa o neurótico, o frio e o rígido dentro dela, e “Divine” traz o lado sensível e profundamente humano.
Essa dualidade guia o trabalho por inteiro, explorando essa sensação maluca (mas real) de ser uma máquina com defeito no código enquanto sente tudo de forma intensa demais.
A abertura do EP foi milimetricamente pensada para anunciar a chegada dessa nova era. Com a faixa “Marble Arch” – lugar que ela ama – o verso “When I came back from the dead, the first thing they said was you’ve never looked better” foi totalmente proposital, uma frase de entrada que ela escreveu enquanto caminhava.
Além disso, em entrevista à 10 Magazine, Erin revelou que versos como “To ache is to be alive” funcionam como mantras diários que ela repete para tentar quebrar a apatia e a angústia interna, esperando que as palavras virem realidade, ecoando que é melhor sentir dor ou transbordar de emoção do que não sentir absolutamente nada.
EP 3 — Pareidolia
O terceiro EP chega como o seu projeto mais maduro e conceitual até agora, batizado de PAREIDOLIA. O termo dá nome ao fenômeno psicológico de enxergar rostos ou padrões em coisas aleatórias, como olhar para uma tomada e ver um rostinho sorridente ou, de forma mais poética, como na clássica “Cloudbusting” de Kate Bush, onde o olhar procura formas de animais nas nuvens.
No EP, Erin leva essa ideia para o lado emocional. Ela mostra como a nossa mente, nos momentos em que estamos perdidos, começa a criar sinais e significados onde eles não existem, gerando uma percepção da realidade completamente distorcida.


As músicas exploram uma espiral emocional densa, moldada por batalhas contra a depressão, a auto sabotagem e a pressão de buscar a fama desde muito cedo. A narrativa mostra o momento em que a imaginação da infância perde a inocência e colide com as dores da vida adulta. A transição entre “I Believe” e “Don’t You See Me Trying?” estabelece o tom dessa jornada, ilustrando a queda livre da busca por um propósito direto para o colapso emocional.
Enquanto “Machine Ghost” foca nas crises de identidade e culpa, “American Dream” traz essa transição para a realidade prática da artista. A faixa aborda a sua juventude na cultura britânica da classe trabalhadora e o choque de viver a mudança abrupta de quem ainda mora com os pais para, de repente, cruzar o oceano em uma turnê pelos Estados Unidos.
Todo esse cenário de expectativas e confusão mental deságua em “Alice”, faixa que encerra o projeto utilizando o universo de Alice no País das Maravilhas como a metáfora perfeita para a pareidolia. Assim como Alice cai na toca do coelho e tenta encontrar sentido em um mundo completamente caótico e sem nexo, Erin usa a música para refletir sobre relações que funcionam como espelhos distorcidos, refletindo apenas as nossas próprias fragilidades e vazios.
Com três EPs que se conectam e mostram uma evolução clara, indo do minimalismo sentimental do primeiro trabalho ao grande peso psicológico deste último, ela crava uma identidade sonora e narrativa raramente vista em início de carreira. O percurso prepara o caminho para um primeiro álbum e deixa a certeza de que esse universo artístico está apenas começando a se expandir.


Como a vulnerabilidade dos fãs ensinou Erin a perder o medo de sentir
Questionada sobre o que aprendeu com seus fãs até então, Erin confessou que encontrou com eles algo que nem esperava:
“Acho lindo o quanto eles amam as coisas de forma tão aberta e sem se desculpar por isso. É tão legal porque eu sempre tentei me importar menos com as coisas e isso me ensina algo para mim que eu não sabia que precisava.
Eu amo o amor deles pela música ao vivo. Amo ver pessoas tão à vontade com a própria sensibilidade, chorando abertamente, cercadas por amigos ou por estranhos que estão sentindo exatamente a mesma coisa.
Eles são analíticos, estudam as letras, escrevem redações sobre elas, e eu respeito isso demais. No fim das contas, tudo é sempre sobre conexão.”
PARA ASSISTIR
WITC Recomenda
- Silver Spoon
- I Believe
- 808 Hymn



