My Chemical Romance voltou a São Paulo na última quinta-feira (5) e, honestamente, vivemos um daqueles momentos que a gente sabe que vai carregar na alma e no coração pra todo sempre. Essa foi a primeira apresentação da banda no Brasil desde 2008, ainda na turnê do The Black Parade, e o retorno não poderia ser mais simbólico. Agora, eles celebram os 20 anos do disco que marcou uma geração inteira. Não à toa, os ingressos estavam completamente esgotados.
“A gente se lembra muito bem desses shows, nos divertimos muito! Se você estava naquele show, muito obrigado por voltarem para este. E se você ainda não era nascido, obrigado por ter vindo hoje”, Gerard Way sobre a passagem da banda pelo Brasil há 18 anos.
A abertura ficou por conta do The Hives, que fez um trabalho simplesmente fenomenal. Foi um daqueles casos em que a banda de abertura não só aquece o público, como conquista de vez. O show foi eletrizante do começo ao fim, com uma energia absurda e um carisma difícil de competir. O vocalista Pelle Almqvist, inclusive, arriscou (e mandou muito bem) no português para se comunicar com a plateia, o que deixou tudo ainda mais próximo, divertido e caótico no melhor sentido possível. Quem não era fã, saiu sendo.
Na primeira parte do show, o My Chemical Romance toca The Black Parade na íntegra, e essa etapa é extremamente teatral. A narrativa apresentada constrói uma distopia marcada por uma ditadura opressora e, nos shows da América Latina, há um foco muito forte na luta antimanicomial.
Em cena, a banda aparece como se estivesse presa em algo parecido com um hospício e um centro de recondicionamento, obrigada a tomar remédios e observada de forma constante. Enfermeiras, militares e até um olho gigante no centro do palco reforçam a sensação de vigilância, controle e obediência. É impossível não fazer paralelos com a sociedade em que vivemos hoje. Quando paramos para pensar, vemos que no fundo não é só um show, é um manifesto visual e emocional.
Já a segunda parte funciona como uma verdadeira roleta russa emocional. O público nunca sabe exatamente quais músicas vão aparecer e isso deixa tudo ainda mais intenso. Na quinta-feira, surpresas como Heaven Help Us, The World Is Ugly e Cemetery Drive fizeram o Allianz Parque inteiro sair do chão. Cada acorde vinha acompanhado de gritos, lágrimas e aquele sentimento coletivo de pertencimento que só uma banda como o MCR consegue provocar. Além disso, sucessos como I’m Not Okay e Helena também estavam presentes na setlist.
Ray Toro, Mikey Way, Frank Iero e Jarrod Alexander entregam uma performance impecável o tempo todo. É uma banda que funciona de forma perfeita e complementar, como sempre funcionou. Mas é impossível não destacar Gerard Way. Por mais que muitos tentem, é difícil (beirando o impossível) ter um frontman como ele. Sua voz continua intacta mesmo duas décadas depois mas, sendo sincera, o que realmente impressiona é sua presença cênica. A teatralidade de Gerard vai muito além do comum, ele te puxa pra dentro da história, te envolve, te hipnotiza e faz você se sentir parte daquele universo.
No fim das contas, ficou claro mais uma vez que My Chemical Romance é o que o emo tem de melhor. Não só pelo som, mas pela entrega, pela mensagem, pela capacidade de transformar um show em experiência, catarse e memória coletiva.





